30.7.17

Na casa dele...


Na casa dele escreve-se nas paredes, há cheiro a lavanda e diz-se o quanto as pessoas estão bonitas. No entretanto há uma gata que nos recebe, um tigre que nos olha de assalto e dias de chuva que tendem a ser felizes. Na casa dele há um beijo logo à entrada, outro perdido pelo corredor e um lugar sempre livre num sofá desajeitado. Existe sempre uma luz como se existisse sempre vida. Na casa dele aquecem-se as mãos depois de aquecer a alma, esquecem-se janelas abertas para inundar o mundo de amor e nunca se viu um relógio por respeito e analogia à liberdade. Adoça-se o tempo com o doce que ficou no congelador, sabendo agora mais a despedida do que às boas-vindas que para ali o levou. Na casa dele os sinais no corpo tornam-se constelações de estrelas, o lugar da roupa é no chão, o silêncio é uma partilha e chuta-se a vergonha a pontapé mesmo que ela insista em se manter à porta assistindo ao desmoronar de muros. Talvez só ela tenha visto, uma pena. Na casa dele às vezes também faz frio sem muito agasalho que se possa pegar, e as viagens... essas são curtas, que de tão intensas não são feitas para pessoas-de-ficar.

24.7.17

Sentou-se frente a ele...


Sentou-se frente a ele numa sala tão vazia quanto os olhos que encarou. Eram poucas as faixas de luz que entravam pela janela e muitas as partículas de um pó que se fazia notar pelo ar. Respiravam um pseudo oxigénio quente carregado de uma tristeza que sufocava. Quebrou o silêncio com o que parecia ser um sussurro.
- Nunca pensei vê-lo chorar.
- Toda a alma tem lágrimas.
- Nunca imaginei ouvi-lo falar em almas.
- Não há quem não as tenha.
  Deixa-me chorar. – implorou desviando o olhar.
- Deixe-me contá-las.
- O infinito não se conta.
- Então e as vezes em que dizia que também se conta o que não tem fim?
- Vejo que aprendeste bem a lição.
- Vejo que afinal me mentiu.
- Não menti. Eram números.
- Como pode haver tanta emoção por detrás deles?
- Quem te mandou olhar além deles? Vai embora, deixa-me chorar.
- Porque se esconde professor?
   (Suspirou. Deixou os braços cair no colo e encostou-se para trás)
- Por já me ter mostrado demais.
- Partiram-lhe o coração?
- A alma, porra!
- Como sabe?
- Contei-lhe os pedaços.
- E depois?
- Vais continuar a fazer perguntas?
- Se puder...até entender como alguém aparentemente tão implacável pode chorar assim. Como se lhe saísse de cada um desses pedaços.
   (Encarou-o num breve silêncio)
- Depois vieram os números e tornem-me aparentemente implacável.
- Se eu chorasse assim tinha-me tornado escritor.
- Não vejas tudo pela lógica. Os números também trazem poesia.
- Mas não rimam. Nem, tão pouco, todos a conseguem ver.
- Quis-me esconder. Para mim, estava ótimo assim.
- Não se arrepende?
- Da matemática? Nem um minuto.
- Mas afinal o que de melhor ela lhe trouxe?
- A matemática? A aprender a contar o infinito.

5.7.17

Quando voltares...


Quando voltares traz uma mão cheia de flores e na outra toda a saudade que te tenho. Vem livre, leve, com um sorriso no rosto consequente da tristeza que deixaste para trás. Guarda, no bolso da ganga rasgada, fotos de ruas tão vazias de nós e entrega-mas quando achares que eu mereço. Prometo escrever-lhes no verso versos teus, sem a pontuação que te permite respirar. Traz os aromas e os sabores, adoça-me a alma tão amarga de ausências. Quando voltares conta-me todas as histórias, os segredos mais bem guardados e diz-me que nada é o mesmo sem mim. Eu vou fingir que acredito, diz-me! Soletra me a palavra A M O R enquanto contas os meus sinais na pele que pede por ti. Eu vou fingir que não partes mais, soletra-me! Quando voltares promete-me uma constelação de estrelas, numa visão de que nada é impossível como eu insistia em te ver. E nessa infinidade de possibilidades da noite se fará dia sem eu ter nada a temer. Quando voltares traz a surpresa nos olhos e revela-me que o mundo afinal é tão imenso que de todas as próximas vezes me levarás contigo. E que essa curiosidade não é só é do mundo, é também de mim, desta outra imensidão. Quando voltares vem de braços abertos, que será para ti que eu corro para te libertar do que trazes nas mãos.

27.5.17

Meu Amor Maior




No colo que te dou nunca poderei prometer que saberei sempre para onde te levar. Poderei sim dar-te a certeza que para onde tu decidires ir, não estarás sozinho. Meu Amor Maior.