16.1.17

Ele só queria uma palavra.


Ele só queria uma palavra. Mas o corpo já não deixava, ela bem que tentava mas naquela cama já tudo se começava a perder. Ele insistia, ela insistia. Era só umas palavras o que ele lhe pedia, as últimas - ambos previam - mas tal não aconteceu. É só mais uma falta, a dela veio logo a seguir porque é em vida que se dão as lições de moral, mas é na morte que as conseguimos ver e receber. Quando não há o toque são as palavras que ficam, quer para o bem quer para o mal. Mas as pessoas calam-se. Guardam tudo para si. Inventam a merda das homenagens apenas nos funerais. Até nos que acontecem a quem está vivo, pois os sentimentos também morrem. Antes mesmo de nós. Com a idade tudo piora. Com o passar da vida também. Descarregamos nos melhores as cicatrizes que os piores nos deixaram. Olhamos cada vez mais para o nosso umbigo. Só para o nosso umbigo. Contruímos muros difíceis de escalar. Cada vez se passa mais tempo sozinho porque ninguém está disposto a dar de si, ninguém está disposto a ter coragem e voltar a acreditar, ninguém está disposto a derrubar os seus muros quanto mais os do outros. E assim vai-se passando o tempo, poupando-se as palavras, ignorando os instintos até já não existir mais o toque, até ser realmente preciso dizê-lo e o corpo não deixar. Morte? Não, já não é disso que vos falo. O pior sobra sempre para quem está vivo.

29.12.16

«Não tem que ser sempre à primeira vista.»



«Não tem que ser sempre à primeira vista.» - disse ela. E, de facto, não. Arrisco até em dizer que deveria ser sempre à segunda. Deveríamos gostar, deixar de gostar, e volta a gostar de uma pessoa – se assim valesse a pena. O amor de primeira cega. Vemos sempre mais do que realmente é, criamos pedestais demasiado cedo, não vemos os defeitos – como saber lidar depois com eles? É no intervalo entre um gostar e o outro que nos distanciamos e percebemos o que realmente ali nos atrai, o que nos afasta… É onde percebemos se aquele sentido de humor continua a ser inteligente, se o levantar da sobrancelha ainda tem o seu jeito atrevido, ou se aquele sorriso continua a ser sincero como da primeira vez. Mas é também quando vemos a intolerância que já não gostamos tanto, a impaciência que não tinha que ser tão impaciente assim, a ligeira imaturidade que estava outrora escondida ou que simplesmente não quisemos ver. Aí fazer-se-ia o balanço. Deixávamos aquele olhar toldado pelo ansiedade de um amor de primeira e íamos com tudo, por saber um pouco melhor, um pouco mais real, sobre o que nos espera. O amor de segunda deveria viver uma vida inteira, e deixávamos o de primeira para os mais loucos, os mais arrojados e que afirmam, ingénuos, serem os mais felizes.